
Ao se celebrar a Abolição como feriado na data do 13 de maio, tenta-se esconder um processo permeado por histórias de tragédias, preconceitos, injustiças e violências em que centenas de milhares de escravizados passaram, da noite para o dia, de um regime pré-democrático, em que a igualdade de direitos e oportunidades deveria prevalecer.
Infelizmente, a história foi outra: negros e seus descendentes alijados e não adequadamente integrados às regras de uma sociedade livre baseada no trabalho assalariado.
Assim, ao acompanhar as histórias de alguns protagonistas afrodescendentes paulistas que no pós-abolição aventuraram-se na cidade do Rio de Janeiro, Lúcia Helena de Oliveira Silva brinda-nos com significativas análises daquele contexto e dos desafios sociais, econômicos e raciais enfrentados pelos libertos no deparar-se frente à modernidade carioca republicana na virada do século XIX e a sua consolidação nas primeiras décadas da centúria seguinte. As trajetórias, expectativas, projetos de vida e desafios de pessoas que não seguiram as ideias ou tendências de sujeição comuns no lançar-se rumo às relações de trabalho livre e assalariado, ao realçar um protagonismo ou agenciamento negro que rompe com a ideia de anomia e total sujeição, serão os desafios enfrentados pelos afrodescendentes paulistas na Belle Époque fluminense; assim como pela autora no trilhar das histórias e das marcas visíveis da escravidão no avançar rumo a tal propalada democracia racial que se espera acontecer no Brasil.
André Figueiredo Rodrigues